Rodando com o Bahia
Bem, o cara não era exatamente um apaixonado por carros, mas não conseguia viver sem ter algo que o levasse a algum lugar. E, por causa disso, topava qualquer parada. Certa vez, uma lona gigante foi erguida sobre a terra vermelha, no lugar onde antes existia só um buraco. Aos poucos, surgiram os anões, os elefantes, as trapezistas, os palhaços e os animais um pouco mais ferozes. Era a gênese da alegria. Em dois dias, desapareceram todos os gatos de rua e também alguns de família. A molecada fazia escambo com o dono do circo, trocando os bichanos por ingressos. Isso garantia uma alimentação viva e variada aos leões velhos e famintos -e um pouco de diversão para a garotada. No fim das contas, um negócio justo. O Bahia também queria negociar. Com fauna tão rica presente na cidade, por que não algo que envolvesse bichos? No meio de uma venda de uns dois ou três bezerros de um sitiante para um fazendeiro local, ele ficou com o equivalente, na época, a uns R$ 500. Isso era uma fortuna que precisava ser bem empregada. O dono do circo, que também era mágico, tinha vários veículos. O Bahia queria apenas um. Um dos leões estava pronto para morrer. Com o sol avermelhado e uma platéia incrédula como testemunhas, os três se encontraram ao lado da lona num fim de tarde de setembro. O destino deles nunca mais seria o mesmo. Meia-hora de conversa, um bate-papo em que apenas o leão não demonstrou empolgação alguma e, no dia seguinte, logo pela manhã, Bahia convida a gente para ir ao circo. Posso dizer que, até então, nunca tinha assistido a uma matinê às 8h, mas o espetáculo seria inesquecível. Com uns R$ 400 na grana de hoje, nosso amigo tirou da cartola uma Veraneio-65, meio esverdeada nas partes ainda não carcomidas pela ferrugem. O carro era responsável por puxar a jaula do velho leão, que faleceu durante a madrugada após o urro final no espetáculo da noite anterior -por sinal, uma apresentação em que ele não soltou nenhum canto do cisne, dizem. Já havia um bom tempo que o Bahia andava com o freio de mão puxado, sem aquela motivação tão conhecida. A Veraneio trouxe de volta a alegria para o nosso amigo. Eufórico, ele nos convidou para o primeiro passeio apoteótico pela cidade, algo digno de fechar o comércio, por mais que isso não tenha acontecido de fato -se bem que todas as vendedoras de todos os bazares se aproximaram da rua para observar a nossa passagem. Pegamos uma pista de ligação com a rodovia. Bahia queria testar a "macchina", fazer o motor trabalhar. E dá-lhe jogar marcha naquele câmbio atrás do volante. Da primeira para a... terceira! A segunda estava morta. Sim, você tinha que esticar a primeira até a terceira para sustentar os 40 km/h do bólido. Fumaça, cheiro de óleo queimado e a gente bambeando de um lado para o outro. O som emitido pelo carro lembrava muito um bate-bate que tive na infância. E lá íamos todos nós, pela manhã, à tarde, diante do sol inclemente do Velho Oeste. Mas a vida era até legal, mesmo que as crianças precisassem matar um gatinho e, os mais velhos, um leão por dia.
Bem, o cara não era exatamente um apaixonado por carros, mas não conseguia viver sem ter algo que o levasse a algum lugar. E, por causa disso, topava qualquer parada. Certa vez, uma lona gigante foi erguida sobre a terra vermelha, no lugar onde antes existia só um buraco. Aos poucos, surgiram os anões, os elefantes, as trapezistas, os palhaços e os animais um pouco mais ferozes. Era a gênese da alegria. Em dois dias, desapareceram todos os gatos de rua e também alguns de família. A molecada fazia escambo com o dono do circo, trocando os bichanos por ingressos. Isso garantia uma alimentação viva e variada aos leões velhos e famintos -e um pouco de diversão para a garotada. No fim das contas, um negócio justo. O Bahia também queria negociar. Com fauna tão rica presente na cidade, por que não algo que envolvesse bichos? No meio de uma venda de uns dois ou três bezerros de um sitiante para um fazendeiro local, ele ficou com o equivalente, na época, a uns R$ 500. Isso era uma fortuna que precisava ser bem empregada. O dono do circo, que também era mágico, tinha vários veículos. O Bahia queria apenas um. Um dos leões estava pronto para morrer. Com o sol avermelhado e uma platéia incrédula como testemunhas, os três se encontraram ao lado da lona num fim de tarde de setembro. O destino deles nunca mais seria o mesmo. Meia-hora de conversa, um bate-papo em que apenas o leão não demonstrou empolgação alguma e, no dia seguinte, logo pela manhã, Bahia convida a gente para ir ao circo. Posso dizer que, até então, nunca tinha assistido a uma matinê às 8h, mas o espetáculo seria inesquecível. Com uns R$ 400 na grana de hoje, nosso amigo tirou da cartola uma Veraneio-65, meio esverdeada nas partes ainda não carcomidas pela ferrugem. O carro era responsável por puxar a jaula do velho leão, que faleceu durante a madrugada após o urro final no espetáculo da noite anterior -por sinal, uma apresentação em que ele não soltou nenhum canto do cisne, dizem. Já havia um bom tempo que o Bahia andava com o freio de mão puxado, sem aquela motivação tão conhecida. A Veraneio trouxe de volta a alegria para o nosso amigo. Eufórico, ele nos convidou para o primeiro passeio apoteótico pela cidade, algo digno de fechar o comércio, por mais que isso não tenha acontecido de fato -se bem que todas as vendedoras de todos os bazares se aproximaram da rua para observar a nossa passagem. Pegamos uma pista de ligação com a rodovia. Bahia queria testar a "macchina", fazer o motor trabalhar. E dá-lhe jogar marcha naquele câmbio atrás do volante. Da primeira para a... terceira! A segunda estava morta. Sim, você tinha que esticar a primeira até a terceira para sustentar os 40 km/h do bólido. Fumaça, cheiro de óleo queimado e a gente bambeando de um lado para o outro. O som emitido pelo carro lembrava muito um bate-bate que tive na infância. E lá íamos todos nós, pela manhã, à tarde, diante do sol inclemente do Velho Oeste. Mas a vida era até legal, mesmo que as crianças precisassem matar um gatinho e, os mais velhos, um leão por dia.
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